Para a compreensão do conceito é necessário manter um questionamento sobre:

  • a atual situação, na qual algumas especialidades (disciplinas) possuem maior valoração social;
  • a ilusão das certezas absolutas;
  • a fragmentação do saber e o consequente impedimento sobre o conhecimento das inter-relações e interinfluências entre as partes e o todo;
  • a acomodação, a arrogância e o individualismo científico;
  • a dualidade corpo/mente e a visão dos especialistas sobre doenças e não sobre doentes.

Dito de outra maneira, a compreensão sobre esse tipo de abordagem envolve a possibilidade de evolução do pensamento cartesiano atual para um novo tipo de conhecimento onde não exista a hierarquização de saberes e a disponibilidade para a aceitação, sem medo, de um caminho repleto de incertezas.

Essa exigência “mínima”, contudo, é de dificílimo exercício num mundo repleto de descrições absolutas sobre a relação causa-efeito (a famosa relação de causalidade), onde elas são postas e hierarquizadas segundo o “status” das disciplinas que as colocam e não pelo seus valores intrínsecos.

Humberto Maturana(1) e Edgar Morin(2) nos advertem para a urgência de se enfrentar a fragmentação do saber. Segundo esses autores, é ela que impede o conhecimento das relações mútuas e das influências recíprocas existentes entre as partes e o todo. Uma famosa frase de Morin nos diz que “Conhecer e pensar não é chegar a uma verdade absolutamente certa, mas dialogar com a incerteza“. Esse é o espírito! Uma demanda de percepção da humildade e da solidariedade necessárias à experiência da condição humana. Eles nos advertem dessa maneira para que sempre procuremos saber e nos ocupar dos limites do conhecimento colocados pela nossa condição e que deveriam fundamentar a convivência e a humildade como alternativas para dialogar com a incerteza inevitável. Não somos deuses nem somos tolos. Necessitamos sempre da inquietude e do encontro com os outros.

Exemplo disso, e num sentido mais específico e de nosso interesse mais imediato, Abram Eksterman(3), em seu excelente texto sobre Abordagem Psicodinâmica dos Sintomas Somáticos(4), descreve sua procura em examinar a interinfluência da Psicanálise com a medicina do corpo, a origem da psicossomática moderna e seu desenvolvimento para a Psicologia Médica. Segundo ele, a utilização do termo “psicodinâmica” é capaz de traduzir melhor uma teoria abrangente da Psicanálise, além de todas as escolas psicanalíticas. Da mesma forma, defende a discriminação entre o modelo fenomenológico e descritivo da patologia, que pretende nosografias, e o psicodinâmico, que pretende significados. Conclui que a psicodinâmica tem efetiva aplicação na condução da prática assistencial através da Psicologia Médica e questiona as tentativas anteriores de “curar” enfermidades somáticas com procedimentos hermenêuticos (explicações/interpretações), oferecendo ao psicanalista algumas observações úteis quanto ao manejo clínico dos pacientes com queixas de enfermidades do corpo e, finalmente, defendendo que a psicodinâmica restaura na Medicina, transcendendo as doenças, a preocupação fundamental com o homem.

Ao final dessas conclusões, ele nos conduz a algumas considerações que se abrem no fértil cruzamento entre a Psicodinâmica e a Medicina, especialmente na prática médica. Lá, de maneira explícita, o autor nos fala que a grande contribuição da Psicanálise é justamente dar subsídios para que haja substancial transformação na prática médica, não apenas acrescentando nosologias psicanalíticas a outras entidades mórbidas, não apenas oferecendo mais uma técnica terapêutica, entre tantas outras.

Essa transformação da Medicina pode ocorrer com a revitalização do conceito do humano ensejada pela familiaridade com que a psicanálise se adentra na alma e a torna não objeto místico, mas objeto de estudo, de reflexão, de teoria e de intervenção terapêutica. A alma que define um eu, uma identidade e, portanto, uma pessoa. A alma que certamente colocada no centro da preocupação médica poderá deslocar o diagnóstico de doenças para o diagnóstico de doentes, e a terapêutica do ministrar remédios para dar prioridade à relação médico-paciente. Se apenas tornar a prática médica mais singularizante e mais humana, se o foco da ação médica for mais o “eu” que o corpo, poderá um dia o médico realmente se dar conta que sua ação privilegiada é mais ajudar a construir saúde que debelar doenças.


(1) “Da Biologia à Psicologia”, 1998 e “A árvore do conhecimento: as bases psicológicas da compreensão humana”, 2001
(2) “A cabeça bem-feita: repensar a reforma; reformar o pensamento”, 2000 e “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, 2000
(3) Membro Titular da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro
(4) Publicado na Revista Brasileira de Psicanálise (1994), volume XXVIII, nº1

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