Coragem

Você duvidaria de uma descoberta científica que ganhasse o Prêmio Nobel de Medicina?

Você se recusaria a passar por uma cirurgia que médicos de todo o   mundo afirmassem ser a mais indicada para o seu caso, mesmo não sabendo   exatamente no que consiste a cirurgia?

Esta é a triste história da lobotomia, ou leucotomia.

Lobotomia

Em 1935, o neurologista português Egas Moniz descobriu uma solução  quase milagrosa para os comportamentos obsessivos e depressivos: cortar  as conexões entre os lobos frontais e o resto do cérebro.

Isso diminuía os comportamentos violentos observados em pacientes de  hospitais psiquiátricos. Se o paciente ficava apático e “tranquilo”,  isso era visto como um sucesso.

Moniz relatou ter observado melhorias dramáticas nos vinte primeiros pacientes tratados.

Foi tanto entusiasmo que a prática se alastrou por todo o globo, logo  saindo dos hospitais psiquiátricos e passando a ser recomendada, por  exemplo, para mulheres com depressão pós-parto.

Apesar da oposição de alguns profissionais, a cirurgia tornou-se  prática comum, recomendada para tratar transtornos compulsivos,  esquizofrenia e depressão.

Em 1949, Moniz ganhou o Prêmio Nobel de Medicina pela invenção da  lobotomia. A cirurgia alcançou então o pico de sua popularidade.

Medicina bárbara

Hoje a lobotomia é vista como uma prática bárbara: são feitos dois furos, um de cada lado do cérebro.

Uma ferramenta simples de metal, com um cabo de madeira, é passada de  um lado para o outro, rompendo as conexões nervosas dos lobos frontais  com o restante do cérebro.

O efeito para o paciente é devastador: ele é mentalmente mutilado, praticamente deixando de existir como pessoa.

E os argumentos dos muitos cirurgiões que ganharam fama com a prática  pareceram bem sólidos na época: segundo eles, o encarceramento em  hospitais psiquiátricos parecia ser uma alternativa pior.

Anular o paciente enquanto pessoa parecia então uma alternativa  razoável, já que ela já estava de fato anulada, e ainda sofria  violências de todos os tipos.

Felizmente, na década de 1950, a lobotomia caiu rapidamente em desuso.

Em primeiro lugar, pelo grande número de cirurgias fracassadas. E, em  segundo, pelo desenvolvimento de drogas psiquiátricas que também  “desligavam” os pacientes violentos sem a necessidade da cirurgia.

Aprendemos a lição?

Será que o mundo aprendeu a lição?

O Prêmio Nobel de Medicina Egas Moniz acreditava que os  comportamentos obsessivos eram gerados por circuitos defeituosos no  cérebro.

Quantas pesquisas atuais não tentam explicar inúmeras condições por “genes defeituosos”?

Até mesmo comportamentos como simpatia, sociabilidade e altruísmo já  foram devidamente “explicados” pela ativação ou desativação de algum  gene.

Você não é capaz de saber se outra pessoa é simpática no primeiro  contato? Pois uma pesquisa ganhou recentemente as manchetes afirmando  não que os humanos sentem a simpatia, mas que eles “detectam o gene da  sociabilidade em 20 segundos”.

E isto deve continuar por muito tempo, conforme mais e mais  universidades compram equipamentos caros de sequenciamento genético, que  devem ser usados por mais e mais alunos de doutoramento e  pós-doutoramento, que continuarão emitindo explicações e dando  resultados baseados no mesmo pressuposto.

E qual é esse pressuposto? O de que o homem, fisiológica e psicologicamente, é aquilo que seus genes dizem que ele é.

Há uma grande corrente que prefere a epigenética,  que seria mais razoável, admitindo que pode ser a simpatia que ativa o  gene, e não o contrário, mas esta corrente ainda está longe de ser  predominante.

Ciência bárbara

Hoje a lobotomia é considerada uma prática bárbara, bizarra e grotesca.

Será que não há tratamentos hoje recomendados que foram desenvolvidos  com base em pressupostos “científicos” igualmente bárbaros, bizarros e  grotescos?

O pressuposto básico da chamada “ciência oficial” é a de que o ser  humano é um animal cuja mente, cuja consciência, ou como se queira  chamar o que a filosofia historicamente chama de “espírito humano”, é um  produto inteiramente gerado pela sua fisiologia.

Em uma comparação com o mundo da tecnologia, o software do homem  emana do seu hardware. Logo, qualquer correção, de qualquer defeito,  deve ser feita no hardware.

É claro que há inúmeros cientistas que discordam disso. Mas eles não  podem publicar isto em seus artigos científicos porque isso não seria  considerado ciência. E isto realimenta o processo, uma vez que o  pressuposto básico do “homem-unicamente-animal” não encontra oposição.

Na época da lobotomia, inúmeros cientistas também se apresentaram  como opositores da cirurgia, mas o argumento de que a alternativa era  pior venceu.

Esse argumento da “alternativa pior” continua sendo usado hoje em muitos casos.

Mesmo quando travestido ele pode ser identificado, por exemplo,  quando protocolos médicos recomendam determinados exames preventivos em  determinada idade e os interesses comerciais começam a reduzir essa  idade cada vez mais, apenas para vender mais exames – “Você quer se  arriscar a ter câncer?”, ameaçam os “vendedores”.

E os medicamentos que vieram ajudar a eliminar a lobotomia hoje são  prescritos também para crianças que apresentam apenas um comportamento  agitado na escola, graças à onda da medicalização de quase todos os comportamentos.

Ciência humana

Os fatos indicam que ainda não estamos isentos de novos barbarismos.  Para limitar sua ocorrência, só mesmo o surgimento de uma ciência  verdadeiramente humana.

No caso da Medicina, de uma ciência médica que nunca se esqueça de  que seu pressuposto básico é que ela estará sempre tratando de seres  humanos, que têm corpo e espírito, e não de animais humanos, animais aos  quais sempre se negou uma alma.

Por Moisés de Freitas

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